Cortar a meta de um “IRONMAN”, “FULL DISTANCE”, ou outra denominação qualquer, dependendo da marca, faz atualmente parte de um dos projetos pessoais mais procurados entre a comunidade atlética. Para que o entendimento seja mais fácil, considerei a terminologia “full” para a distância 3800m-180k-42,2k e “half” para os 1900m-90k-21,1k.

As razões para que tal desafio passe a fazer parte da agenda podem ser várias, sempre associadas à procura do limite e elevado sentido de superação. No entanto, nem sempre quem abraça tal desafio pode ter a real consciência do que envolve a preparação e participação num evento deste género.

Alguns atletas optam por uma preparação autodidata, sempre arriscada, mas possível. Outros, procuram acompanhamento e aconselhamento de treinadores que os possam ajudar a cruzar a meta, na esperança de que todo o processo de preparação seja mais individualizado e os leve a conseguir um melhor tempo.

Planos de treino, metodologias e formas de enquadrar atletas existem muitas, todas provavelmente com alguma validade, mas também seguramente com margem de evolução, pois não existem preparações perfeitas. Mas não é o planeamento em si que pretendo aqui tratar, é o que está bem antes dos treinos começarem.

Independentemente do método, considero que todos os treinadores, devem apelar ao bom senso dos atletas e pautar a sua intervenção com grande sentido de responsabilidade quando se trata de treinar alguém para distâncias longas, pois quanto maior for a distância, maior deve ser a base e o tempo a dedicar à preparação da competição em causa.

O impulso e a elevada motivação para superar o desafio pode retirar alguma lucidez na avaliação do necessário processo para chegar preparado à partida, sendo obrigação do treinador orientar toda a evolução para salvaguardar a saúde e bem-estar do atleta em primeiro lugar.

Quantos atletas não abordaram já treinadores para que os preparem para os míticos 3800-180-42 sem terem, no entanto, a base considerada necessária?

Sob risco de perderem “clientes”, mas com a certeza de que este é o caminho certo e que o grau de responsabilidade do treinador está acima de outros interesses, aqui fica a minha opinião sobre formas de abordagem e progressões possíveis para um atleta pensar em preparar a distância “FULL”.

Para atletas sem qualquer passado desportivo, uma progressão mínima de 4 temporadas será o indicado. Pode parecer muito, mas na realidade, considero o mínimo recomendado.

A primeira temporada deve ser orientada para a criação de hábitos de treino e participação em competições na distância sprint no início e experiência na distância Olímpica no final, com possibilidade de participação em várias corridas entre 5 e 10km, duatlos na distância sprint, tal como algumas travessias até 1500m e “minifondos” até 60km.

Já a segunda temporada pode incluir várias competições na distância sprint e Olímpica e eventual participação no primeiro “half” no final, se não tiverem ocorrido lesões e as competições nas distâncias mais curtas tiverem sido bem assimiladas. A participação em duatlos até à distância standard terá também um bom transfere, e a primeira experiência na distância de meia maratona pode fazer sentido, tal como a participação em travessias até 3000m e “mediofondos” até 100-120km.

A terceira temporada deve ser orientada para a participação prioritária em 2 ou 3 triatlos na distância “half”, já com possíveis incursões em várias meias maratonas, granfondos até 150km e travessias que podem ir até 5000m.

Se tudo tiver corrido sem problemas de maior nas três temporadas anteriores, a quarta temporada pode ser totalmente orientada para a distância “full”, sendo aconselhada a integração de 1 ou 2 triatlos na distância half e outras competições por segmento que possam servir de preparação. A participação numa maratona nesta temporada não é um requisito, mas pode servir para trabalhar prioritariamente a corrida para os mais necessitados e dar confiança na distância. Ao ser integrada uma maratona na preparação, será conveniente que aconteça pelo menos 5-6 meses antes da competição principal.

Relativamente a atletas já com passado desportivo ligado ao triatlo, tudo pode ser muito mais rápido com uma progressão em dois anos, partindo do pressuposto que já competiram com regularidade em triatlos na distância sprint e olímpica.

Para os que já têm alguma experiência na distância “half”, uma temporada especificamente orientada para a distância “full” será suficiente para se adaptarem.

Naturalmente que existem diversas variantes, como sejam atletas que têm passado desportivo ligado apenas a um ou dois dos segmentos do triatlo, e aí já caberá ao treinador saber gerir a carga relativa e prioridade a dar a cada uma delas, sabendo que o problema reside essencialmente em administrar a corrida, pois pode representar maiores riscos de lesão.

E para quem não sabe nadar ou nada muito mal? Naturalmente que é possível participar preparar e participar em triatlos, mas os cuidados devem ser grandes na seleção da competição. Convêm sempre relembrar os recentes acontecimentos relacionados com mortes durante a natação, e a associação feita a problemas cardíacos que possam ter sido causados por ataques de pânico. Quem começou a nadar tarde, dificilmente vai passar a ser um bom nadador, e como tal, nunca deve facilitar. Para este perfil de atleta, aconselho a participação em triatlos que permitam o uso de fato isotérmico, com a água a temperaturas que não sejam demasiado frias e movimentadas.

Outro aspeto a ter em conta e que também apela ao bom senso do atleta e honestidade do treinador tem a ver com a disponibilidade para treinar em função do objetivo competitivo. Já vi um pouco de tudo em revistas e blogs ditos “especializados”, e mais uma vez, acredito que tudo é possível. Um atleta consegue, sem dúvida, concluir uma distância “full” com 8-10h de disponibilidade semanal para treinar, mas não deve! Perante este cenário, mesmo depois de ter existido uma progressão adequada nos treinos e competições nas temporadas anteriores, mais vale orientar a participação competitiva para distâncias mais curtas. Preparar uma competição que vai demorar 10-12-14-16h, treinando 8h por semana é um risco, e não é suficiente.

Ora reparem: se incluirmos na rotina semanal 2 corridas de 1 hora, um ou dois treinos de ciclismo que somem 4 horas, uma sessão de natação de 1 hora e um treino complementar de força ou outro, também de 1 hora, chegamos às oito horas. Não chega… acredito que este seja requisito mínimo para a distância standard.

Com 10-12 horas de treino semanal e pelo menos uma semana por mês em que exista a possibilidade de ir até às 14-16h (férias / feriados), já considero ser possível um treinador aceitar o desafio de preparar um atleta para a distância “full”, desde que tenham sido cumpridos os requisitos que acabamos de mencionar, em termos de progressão e background.

Portanto, colegas treinadores, vamos continuar a ajudar os atletas a passar por estas experiências fantásticas, mas vamos fazê-lo de forma a quererem cortar a meta muitas vezes. A experiência de uma preparação para um triatlo não deve ser encarada como uma promessa, que uma vez cumprida, não querem voltar a repetir.